TEXTOS

Ayuda para la vida diaria, enero 2011
A paz
Fenômeno: futebol – 8/01/2011
de Hermann Furthmeier


A Alemanha está jogando contra a Inglaterra nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2010.
Estou sentado em frente à TV, o placar está 2 a 1 a favor da “nossa” seleção.  A tensão está crescendo, as mãos suam, o batimento do coração é audível, o pulso se acelera e a respiração está contida.
É quando me chega o pensamento: o que está acontecendo aqui? O que está acontecendo comigo? Se estou sentando em frente a uma televisão e, na longínqua África do Sul, 22 homens correm atrás de uma boa e um juiz e dois bandeirinhas controlam o evento?
Trata-se de tudo o que tenho, minha estirpe, meu grupo, ao qual pertenço, meu país, Alemanha. Trata-se da sobrevivencia do meu clã. As reações físicas indicam luta. O  outro grupo, o outro país tem que ser combatido, tem que ser vencido. Só um “sobrevive”, só um pode seguir.
De onde vêm as reações corporais? Surge no corpo a memória das confrontações entre tribos de épocas remotas, onde logicamente, sempre se tratava de vida ou morte.
O enfoque de Bert Hellinger me ajuda. Ele descobriu que uma pessoa está ligada a seu grupo através da boa consciência e é assim que a defende. Assim se adquire o direito a pertencer ao grupo e, também, ganha-se mais honra.
Comigo, o corpo reage indubitavelmente pelo grupo da Alemanha e não sinto tristeza nem dor profunda se a Inglaterra é eliminada. Na esfera da boa consciência, encontro-me unido a meu clã, os outros, neste caso a Inglaterra, deve-se vencê-los “futebolisticamente” e aniquilá-los.
Em meu entender, muitos homens experimentam velhos padrões de luta aos quais estão profundamente arraigados. O corpo ainda os conhece, mesmo que o intelecto creia já haver-se despojado deles. Aquele que não sente este desejo de aniquilamento, sofre uma agressão oculta e não nota que seu estado pacífico é apenas superficial.
Como saio agora dessa tensão e ansiedade, a menos que queira manter-me a todo custo com essa sensação e lesionar meu coração? Somente com outra consciência, com a consciencia de ser infiel a todo ese processo e a meu país. Antigamente, isso estava ligado à exclusão do clã, à perda do pertencimento – que equivalia à pena de morte.
E logo chega uma compreensão: me imagino como um fanático torcedor inglês que se encontra em frente à televisão, cativo, apaixonado e com boa consciência por seu país. Como serão suas sensações e a de todos os outros fanáticos do mundo? Talvez com uma ou outra diferença de caráter, mas nenhum melhor ou pior na conexão com seu time em campo.
Agora começo a observar os homens dos dois times, como lutam, como se apaixonam, como entregam tudo, olho a todos da mesma maneira. O motivo os une.
Quem será o ganhador ou perdedor, já não tem tanta importancia. Se estabelece uma distância. A mim não acontece mais nada diante da televisão porque, agora, estou indiferente. Estou superando minhas limitações prévias. As sensações físicas diminuem, as mãos estão secas, os batimentos cardíacos normalizados, chega o relaxamento. Não necessito lutar contra ninguém, nem aniquilá-lo, tampouco fugir.
Faz muito tempo que vale o antigo, repetido tantas vezes: as estirpes, clãs, povos, religiões, países que se enfrentam pelos motivos mais diversos. Foram especialmente os homens que, por todos os meios, procuraram a vitória de seu grupo para assegurar, assim, sua sobrevivência.  
É um velho jogo, no futebol se encontra mais refinado e civilizado, mas trata-se de ataque e defesa, velhos rituais de luta pela sobrevivência e do desejo de aniquilamento.
Muitos homens o amam e algumas mulheres também.

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Lendo o livro de Siegfried Essen, "El arte de amarse, um ejercicio espiritual sistémico", encontro alguns trecho que, inevitavelmente quero repassar aos leitores do blog.
A tradução e a escolha dos trechos que seguem são livres, minha escolha, pensando nos possíveis esclarecimentos e reflexões que podem trazer. Boa leitura!

[...]O que fazemos ao externalizar o que, neste livro, resumimos chamando de incorporação ou constelação? Colocamos para fora realidades internas pelas quais, muitas vezes, nos sentimos avassalados sendo que, desta forma, nos distanciamos delas. Assim, passo à passo, podem transformar-se em menos ameaçadoras, em mais tratáveis, mais humanas e também mais interessantes e dignas de serem amadas. A constelação externalizada é uma forma de reenquadre (reframing), que significa dar uma nova moldura a uma coisa ou situação, observar ou vivenciar de uma nova perspectiva. Virginia Satir era uma mestra nisso e não apenas a partir das palavras, mas também do não verbal. Desenvolveu o trabalho das esculturas e da construção familiar que Bert Hellinger mais tarde usou transformando no trabalho das constelações.
Significa que projetamos realidades internas para fora a fim de domesticá-las, para nos familiarizarmos com elas. E isso não é paradoxal? Aquilo que está dentro de cada um de nós não é o que de mais próximo temos? É possível conseguir familiaridade através de distância e diferenciação? Virginia Satir disse: "A confiança é uma sensação, não é possível fabricá-la. Mas a abertura se pode produzir. Através da abertura nasce a confiança". Através da externalização e personalização abrimos conteúdos internos, emaranhados, obscuros e angustiantes, os trazemos à luz e, desta forma, pode surgir familiaridade e confiança. Foi dado, então, um primeiro passo em direção a aceitação e ao amor a si mesmo.[...]
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A escritora e terapeuta junguiana, Clarissa Pinkola Estés, no livro "A Ciranda das Mulheres Sábias", fazendo a analogia do enorme e centenário choupo que, após ser cortado, rebrota em 12 novas árvores que surgem milagrosamente sobre a enorme circunferência que restou na superfície e nós, mulheres:

[...]Pois quem será capaz de dizer que alguma coisa querida que foi rasgada e retalhada morreu de verdade?
Quanto a qualquer mulher arrasada, quem poderá um dia começar a avaliar que grande vida acabará por brotar dos seus cortes, dos seus ferimentos — da eletricidade empurrada para cima a partir do seu cerne oculto, aquele estopim dourado? Por mais que ela tenha sofrido mutilações profundas, sua raiz radiante ainda está viva, ainda está produzindo e sempre estará à procura de vida significativa a céu aberto.
Dentro da psique de muitas mulheres existe algo que entende intuitivamente que o conceito de "curar" está incluído na palavra "saúde". Quando ferida, ela se torna "cheia de cura" — cheia de recursos de cura, o que significa que algum filamento vibrante, gerador de vida, no seu espírito e na sua alma se move persistentemente na direção da nova vida, seja na busca de muitos tipos de forças, seja na reconstituição da integridade perdida, seja na criação de um novo tipo de integridade, diferente da que havia antes.
Essa força interna é cheia do impulso pelo bem-estar.
Ela acredita num fator de salvação que pode resistir e há de resistir à crueldade. O sistema radicular oculto cresce a seu próprio modo, independentemente de projeções, pressões e acontecimentos externos. Ele continua literalmente em efervescência, subindo em ebulição, fluindo para fora, para cima, atravessando o que for preciso, não importa o que tenha sido disposto contra ele. Aí incluídas forças externas. Aí incluída a própria mulher.
Mesmo quando a atuação do ego é temporariamente reprimida, a mulher oculta por baixo da terra, a que cuida do fogo para esse fim, mantém a atitude pela vida — por mais vida! — que está sempre fazendo força para cima, sempre insistindo em mais vitalidade e se desenrolando, sempre preservando mais e sendo audaciosa e ponderada... e então mais um pouquinho, mais um pouquinho, até que a árvore da vida a céu aberto equipare-se a seu amplo sistema de raízes subterrâneas.[...]


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