CONTEXTUALIZANDO AS CONSTELAÇÕES

O texto a seguir é uma adaptação da matéria que escrevi com a colaboração da colega e amiga Ione Copetti e foi publicado no Jornal Bem Estar (Santa Maria) de novembro de 2015.

Cada um de nós já viveu ou, pelo menos, conhece alguém que passou ou passa por uma situação que parece nunca se resolver. Seja na repetição de relacionamentos frustrados, na falta de prosperidade e/ou satisfação profissional, em problemas de saúde sem diagnóstico clínico, em conflitos que se arrastam por anos na justiça.
A Constelação Familiar é um método psicoterapêutico de abordagem sistêmica e fenomenológica desenvolvido por Bert Hellinger, pedagogo, filósofo e psicanalista alemão. É um modo de acessar o inconsciente pessoal e coletivo criado graças às compreensões de Bert, cuja longa caminhada por formações em técnicas terapêuticas tradicionais e alternativas, gerou um método original, cuja difusão e efeitos vêm se aprofundando em todos os continentes.
Denominou-o de fenomenológico porque não se trata de interpretar ou concluir sobre fatos trazidos pelo cliente. E sim de “ver” algo acontecendo. É um método surpreendente, através do qual o cliente assiste à representação de sua questão. Com um mínimo de informações, a condução do trabalho desencadeia imagens muitas vezes inesperadas, revelando temas-conflito que poderão ser então resignificados. Aprendizados acontecem de uma forma simples, profunda e eficaz.

A utilização de representantes para visualização da problemática dos clientes em
terapias de grupo já existia anteriormente às Constelações. A descoberta de
Hellinger é que os Sistemas Familiares são regidos por leis, denominadas por ele
“Ordens do Amor”. Quando estas leis, por um motivo ou outro são quebradas, surgem problemas, desequilíbrios, dificuldades, bloqueios e, até mesmo, doenças.

Na Constelação é possível evidenciar a existência de uma transmissão transgeracional que cria uma cadeia de destinos, percebendo-se os profundos laços que unem uma pessoa a sua família.  Herdamos os gens de nossos antepassados e também, mesmo que inconscientemente, suas memórias, sofrimentos, perdas e outras situações, quando estas não foram devidamente integradas.

QUEM É BERT HELLINGER

Nascido em 1925, na Alemanha, estudou por seis anos em um seminário católico, até este ser fechado, em pleno período nazista. Sua família não cedeu às pressões do nacional-socialismo, não se filiando ao partido de Hitler. Assim, aos 17 anos, Bert foi incorporado ao exército e enviado para o front, na II Guerra Mundial. Prisioneiro na Bélgica, por um ano, conseguiu escapar retornando a Alemanha, onde reingressou no seminário e se formou sacerdote. Foi enviado à África do Sul, trabalhando por 16 anos com os zulús. Observando os nativos em sua relação de profunda reverência aos antepassados, iniciou seu caminho na compreensão das relações humanas com a ancestralidade. Nessa época, conheceu as dinâmicas de grupo. Retornando à Alemanha, fez formação em psicanálise, abandonou a vida sacerdotal e buscou outras formações. Entre elas: Terapia Primal, Análise Transacional, Gestalt, PNL, Terapia de Familia. Hellinger conta que sentiu, desde a época da formação em Psicanálise, que não se enquadraria em uma linha terapêutica específica. Verificamos a coerência dessas palavras em seu trabalho com as Constelações, que não ficou preso a um modelo rígido e vem se desenvolvendo, desde o início, quando estabeleceu as “Ordens do Amor”, as quais explicam as dinâmicas que se encontram por trás dos fenômenos observados nos atendimentos, incorporando posteriormente os chamados “Movimentos da Alma” até chegar aos “Movimentos do Espírito”, criando a denominada Hellinger Sciencia®. Ainda hoje, aos 90 anos de idade, ele viaja pelo mundo, dando cursos e formações.

O QUE PODE SER CONSTELADO

•    dificuldades nos relacionamentos pessoais, profissionais e familiares;
·        tragédias que se repetem através das gerações;
·        traumas, separações e perdas;
·        depressão, pânico, medo da morte;
·        doenças físicas e emocionais / dependências e vícios;
·        problemas de ordem financeira e posses.

ENTENDENDO COMO FUNCIONA

A constelação pode ser realizada em grupo ou em atendimentos individuais.

Em grupo

Existem três níveis de participação. É importante ressaltar que, em cada um deles, o trabalho pode produzir efeitos de ampliação da percepção.
Participando como Observador, pelo simples fato de estar presente ao trabalho, acontece muitas vezes de se desencadear um processo de autoconhecimento para a pessoa. 
Como Representante na constelação de outra pessoa, permite-se tomar consciência do que é estar na “pele do outro”, já que se penetra no campo de um membro do sistema do cliente, seja um parente (atual ou ancestral) ou um elemento de sua questão como, por exemplo, funcionários da empresa do cliente (nas constelações organizacionais), um sintoma (nas constelações de saúde), etc. Nesse lugar, pode-se experienciar verdadeiramente porque não devemos julgar a ninguém - somos colocados em uma posição de observador interno daquele ou daquilo que representamos. Esse lugar também pode levar o representante a vivências que reverberam em seu próprio sistema, desencadeando um processo de crescimento pessoal. 
O Cliente é quem traz uma questão para trabalhar. Após uma breve entrevista, feita diante do grupo ou de forma privada, coloca-se a constelação utilizando representantes para ocuparem os lugares das pessoas relacionadas à questão. Por vezes o próprio cliente é chamado a participar. A partir daí acontece o trabalho, quando, muitas vezes, vem à luz uma dinâmica oculta, cujo reconhecimento indica o caminho da solução. No decurso de uma Constelação, quando há abertura real do cliente (no sentido de uma sincera determinação na busca de uma solução) surgem imagens que conduzem a energia do sistema no sentido da cura.

Os passos:
1- O cliente apresenta a questão que pretende trabalhar, priorizando aquilo que considera relevante; 
2- É feita uma entrevista com o cliente, que poderá ser aberta ao grupo ou feita de forma privada. Aqui não interessam interpretações, apenas fatos da biografia do cliente e, quando este possui dados, de seu sistema;
3- Após, são colocados representantes, convidados a participar entre as pessoas presentes no grupo. A aceitação não é obrigatória – apenas se recomenda que aceitem, pela riqueza da experiência; 
4- Os representantes se posicionam e se observa a primeira imagem; 
5- A partir daí, as dinâmicas acontecem. Conforme os processos que afloram, o facilitador conduz o processo, atento à uma postura de não intenção, não julgamento, recolhimento;
6- Quando se percebe o momento adequado, os movimentos são detidos e se conclui a dinâmica; 
7- É solicitado que os participantes não comentem o processo, especialmente com o cliente atendido, deixando que, a partir daquele momento, a energia trabalhada continue fluindo, sem interferências externas.

Atendimento Individual

Os princípios utilizados no trabalho individual são exatamente os mesmos do grupo. No entanto, os representantes serão substituídos por outros elementos e utilizadas técnicas diversas.

Normalmente os clientes perguntam se há diferença no efeito de um trabalho ou outro. A resposta é não. O que os diferencia são as técnicas utilizadas e a abertura que o cliente se permitirá em um espaço ou no outro.

O FENOMENOLÓGICO, A SERVIÇO DA SOLUÇÃO

Pessoas que participam pela primeira vez de um trabalho de Constelações ficam espantadas como os representantes conseguem sentir as emoções, pensamentos e sensações de pessoas desconhecidas. As explicações sobre esse fenômeno podem ser encontradas em diferentes abordagens. Cientificamente, nos aproximamos da resposta através da teoria dos campos morfogenéticos, desenvolvida pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake. No entanto, o mais importante não é o fenômeno, mas o sentido expresso nas imagens que nos chegam pelas constelações e na orientação que aponta para a resolução dos conflitos. 
Este trabalho é recomendado às pessoas que, de alguma forma, percebem-se “enroscadas”, “emaranhadas”, “sem saída” ou repetindo histórias sem a menor ideia de como modificar os acontecimentos com os recursos que possuem e se sentem chamadas a fazer um movimento no sentido da solução.

Em 2014, uma cliente quis constelar, pois, mesmo com formação até o doutorado não conseguia em passar em concursos para lecionar. O trabalho foi realizado, revelando uma lealdade aos sofrimentos e privações que sua família de imigrantes sofreu no país de origem e no estabelecimento no Brasil. Quatro meses após a constelação, ela relatou que havia passado em primeiro lugar em um concurso para professora.
Outra pessoa relatou que sentia há muito tempo uma angústia constante, medo de que “algo” fosse acontecer. Ao chegar à maternidade a sensação se intensificou e isso atrapalhava sua relação como mãe e esposa. A constelação trouxe à tona o vínculo profundo da cliente com seus ancestrais judeus, perseguidos no nazismo. Depois do trabalho, a angústia e o medo de que “algo” fosse acontecer desapareceram.

As Constelações são uma ponte para uma dimensão da realidade da vida, expressando profundos movimentos da alma que transcendem a nossa capacidade habitual de entendimento das relações humanas.  Elas mostram como estamos todos ligados de uma forma misteriosa.  Oferecem uma oportunidade para constatar as teorias espirituais milenares que dizem que "somos todos um", assim como as mais recentes teorias científicas sobre a unidade de tudo o que existe no Universo, oferecendo uma oportunidade para observar como as teorias espirituais e científicas caminham cada vez mais em sentidos convergentes. Bert Hellinger diz: “nós não temos uma alma e sim somos parte de uma alma”.

A Constelação é uma ferramenta transformadora que pode gerar resultados quando existe uma necessidade real e nunca para suprir uma curiosidade. Quando a alma da pessoa pede de sua profundidade a constelação, ela é rica, pois a motivação sincera é a chave para encontrar os recursos que levam à cura.  

Fazer uma Constelação significa, de um modo simples, encontrar soluções para problemas específicos que se está vivendo. O trabalho busca e revela soluções práticas, trazendo à tona aquilo que é essencial e que pode ter sido esquecido ou negado. Falar de constelação é falar em visão sistêmica.  Nascemos dentro de um sistema familiar, que existe há muitos anos e do qual desconhecemos em parte ou todo o seu histórico. Atrás de cada pessoa, existem gerações repletas de histórias, acontecimentos, situações trágicas e felizes.   Quando trabalhamos com constelação, trabalhamos com uma rede interativa, com a alma familiar. O que acontece na constelação reverbera nesse sistema, podendo trazer um ensinamento para a história de cada um e mais paz. 

CONSTELAÇÕES ORGANIZACIONAIS

Uma entidade, empresa ou instituição, também é um sistema: possui uma história, um fundador (ou fundadores) e tem uma missão. É composta por pessoas que desempenham tarefas diversas e complementares, tem uma hierarquia, está em relação com associados, colaboradores, fornecedores, clientes. Nesse âmbito, estamos falando das constelações organizacionais, cujos fundamentos estão relacionados com as constelações familiares, mas se direcionam ao campo profissional, do trabalho e, neste aspecto, apresentam determinadas especificidades, que poderão também ser examinadas a partir de suas dinâmicas. 

PEDAGOGIA SISTÊMICA

A Pedagogia Sistêmica permite a descrição e entendimento de diversos níveis de fenômenos que surgem no processo de ensino-aprendizagem, bem como nos locais onde ele ocorre: nas escolas e lares.

Até então, estes sistemas não haviam sido considerados dentro de um contexto mais amplo no qual existem as Ordens que os movem e regem. A Pedagogia Sistêmica foca sua atenção nesses subsistemas, suas interações e o lugar que ocupam, buscando alcançar uma maior funcionalidade e integração de suas bases. Esta abordagem está sendo desenvolvido fortemente na prática escolar, em diversos níveis, no México e Espanha. Ver http://www.pedagogiasistemicacudec.com/

CONSTELAÇÕES NO JUDICIÁRIO

Juiz de Direito no Estado da Bahia, precursor na utilização do método das constelações no judiciário, Sami Storch, é o autor da expressão “Direito Sistêmico”. Explica que ela surgiu da análise do Direito sob uma  ótica baseada nas ordens superiores que regem as relações humanas, conforme a visão de Bert Hellinger.

Em 2004, quando conheceu as constelações percebeu que, além da eficácia terapêutica, o método apresenta um potencial imenso para utilização na área jurídica. Ele diz: “Na prática, mesmo tendo as leis positivadas como referência, as pessoas nem sempre se guiam por elas em suas relações. Os conflitos entre grupos, pessoas ou internamente em cada indivíduo são provocados, em geral, por causas mais profundas do que um mero desentendimento pontual, e os autos de um processo judicial dificilmente refletem essa realidade complexa. Nesses casos, uma solução simplista imposta por uma lei ou por uma sentença judicial pode até trazer algum alívio momentâneo, uma trégua na relação conflituosa, mas às vezes não é capaz de solucionar verdadeiramente a questão, de trazer paz às pessoas.”

O Direito Sistêmico se propõe a encontrar a verdadeira solução dos conflitos, sendo que ela jamais será apenas para uma das partes, uma vez que, necessariamente, olhará para o todo (o sistema) envolvido na questão.
Um exemplo dado pelo Juiz: usualmente, em uma ação de divórcio, a solução jurídica relativa aos filhos menores pode ser simplesmente definir qual dos pais ficará com a guarda, como será o regime de visitas e qual será o valor da pensão. Mas de nada adiantará uma decisão judicial se os pais continuarem se atacando. Independentemente da pensão ou guarda estabelecidas, os filhos crescerão como se eles mesmos fossem os alvos das agressões entre os pais, já sistemicamente são vinculados aos dois de forma igual, pois por meio deles receberam a vida. Assim, mesmo que o filho manifeste uma rejeição ao pai – porque este abandonou a família ou porque não paga pensão, por exemplo – toda essa rejeição se volta contra ele próprio, inconscientemente.
Da mesma forma, quando o juiz toma o partido de um dos pais, o conflito interno na criança é reforçado. A solução sistêmica precisará, em primeiro lugar, excluir os filhos de qualquer conflito existente entre os pais, para que eles possam sentir a presença harmônica destes em suas vidas. O juiz, por sua vez, antes de decidir, deve considerar essa realidade e ter em seu coração as crianças e os pais, além de outras pessoas eventualmente envolvidas, sem julgamentos de qualquer tipo. Com tal postura, por si só, estará facilitando uma conciliação entre as partes. Caso se faça necessária uma solução imposta, esta será mais bem recebida por todos, pois sentirão que foram vistos e considerados pelo juiz.
O magistrado destaca que esta postura não impede que o pai e a mãe discutam as questões necessárias, judicialmente ou não, desde que isso se dê entre eles, sem o envolvimento dos filhos, nem que o juiz decida as demandas que lhe forem postas. A abordagem sistêmica do Direito propõe a aplicação prática da ciência jurídica com um viés terapêutico – desde a etapa de elaboração das leis até a sua aplicação nos casos concretos. A proposta é utilizar as leis e o direito como mecanismo de tratamento das questões geradoras de conflito, visando à saúde do sistema “doente”, como um todo.
Mais informações sobre o Direito Sistêmico podem ser encontradas em https://direitosistemico.wordpress.com

 

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