segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Paz - Fenômeno: futebol

Tradução livre do texto de Hermann Furthmeier em "Ayuda para la vida diaria, enero 2011" 
A Alemanha está jogando contra a Inglaterra nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2010. 
Estou sentado em frente à TV, o placar está 2 a 1 a favor da “nossa” seleção.  A tensão está crescendo, as mãos suam, o batimento do coração é audível, o pulso se acelera e a respiração está contida. 
É quando me chega o pensamento: o que está acontecendo aqui? O que está acontecendo comigo? Se estou sentando em frente a uma televisão e, na longínqua África do Sul, 22 homens correm atrás de uma boa e um juiz e dois bandeirinhas controlam o evento?
Trata-se de tudo o que tenho, minha estirpe, meu grupo, ao qual pertenço, meu país, Alemanha. Trata-se da sobrevivência do meu clã. As reações físicas indicam luta. O  outro grupo, o outro país tem que ser combatido, tem que ser vencido. Só um “sobrevive”, só um pode seguir.
De onde vêm as reações corporais? Surge no corpo a memória das confrontações entre tribos de épocas remotas, onde logicamente, sempre se tratava de vida ou morte.
O enfoque de Bert Hellinger me ajuda. Ele descobriu que uma pessoa está ligada a seu grupo através da boa consciência e é assim que a defende. Assim se adquire o direito a pertencer ao grupo e, também, ganha-se mais honra. 
Comigo, o corpo reage indubitavelmente pelo grupo da Alemanha e não sinto tristeza nem dor profunda se a Inglaterra é eliminada. Na esfera da boa consciência, encontro-me unido a meu clã, os outros, neste caso a Inglaterra, deve-se vencê-los “futebolisticamente” e aniquilá-los.
Em meu entender, muitos homens experimentam velhos padrões de luta aos quais estão profundamente arraigados. O corpo ainda os conhece, mesmo que o intelecto creia já haver-se despojado deles. Aquele que não sente este desejo de aniquilamento, sofre uma agressão oculta e não nota que seu estado pacífico é apenas superficial.
Como saio agora dessa tensão e ansiedade, a menos que queira manter-me a todo custo com essa sensação e lesionar meu coração? Somente com outra consciência, com a consciência de ser infiel a todo esse processo e a meu país. Antigamente, isso estava ligado à exclusão do clã, à perda do pertencimento – que equivalia à pena de morte.
E logo chega uma compreensão: me imagino como um fanático torcedor inglês que se encontra em frente à televisão, cativo, apaixonado e com boa consciência por seu país. Como serão suas sensações e a de todos os outros fanáticos do mundo? Talvez com uma ou outra diferença de caráter, mas nenhum melhor ou pior na conexão com seu time em campo.
Agora começo a observar os homens dos dois times, como lutam, como se apaixonam, como entregam tudo, olho a todos da mesma maneira. O motivo os une.
Quem será o ganhador ou perdedor, já não tem tanta importância. Se estabelece uma distância. A mim não acontece mais nada diante da televisão porque, agora, estou indiferente. Estou superando minhas limitações prévias. As sensações físicas diminuem, as mãos estão secas, os batimentos cardíacos normalizados, chega o relaxamento. Não necessito lutar contra ninguém, nem aniquilá-lo, tampouco fugir.
Faz muito tempo que vale o antigo, repetido tantas vezes: as estirpes, clãs, povos, religiões, países que se enfrentam pelos motivos mais diversos. Foram especialmente os homens que, por todos os meios, procuraram a vitória de seu grupo para assegurar, assim, sua sobrevivência.   
É um velho jogo, no futebol se encontra mais refinado e civilizado, mas trata-se de ataque e defesa, velhos rituais de luta pela sobrevivência e do desejo de aniquilamento.
Muitos homens o amam e algumas mulheres também.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Junho

Pergunta: "O que se deve fazer depois de uma constelação? "
Resposta: "Nada!"
Pois é no recolhimento que se fortalece a energia para a próxima brotação!
Feliz entrada de inverno!


terça-feira, 10 de abril de 2018

Há tempo para tudo sob o céu...

Há um tempo que me perguntam se ministro cursos de constelações familiares. A resposta foi sempre não.
Já fui tentada a organizar uma formação em Santa Maria na área da pedagogia sistêmica. Tenho tantos amigos professores, em todos os níveis de ensino das redes privada e pública que, sem exceção, falam do agravamento da situação em sala de aula...
Em 2016, participei de um curso com a pedagoga e consteladora Marianne Franke-Gricksch, fundadora da pedagogia sistêmica. Aprendi algumas coisas e fiquei motivada a examinar a possibilidade de organizar a formação nessa área. Mas devido à minha profissão original, como produtora cultural, que já me fez trilhar algumas vezes a senda de organização de eventos, optei por não "misturar as estações".
O trabalho com as constelações surgiu como um caminho natural que vem se abrindo passo à passo e sempre me conduzindo ao "campo". Não me atraiu a idéia de gerir a produção de um evento no qual gostaria de ser apenas aluna. Optei, assim, por não me envolver com a produção de uma formação.
Mas o chamado continua...e, finalmente, resolvi olhar para isso com bons olhos.
Assim, no dia 26 de abril iniciaremos, em Santa Maria, através do convite recebido da terapeuta Angela da Luz, um grupo de estudos para 14 pessoas interessadas em conhecer os fundamentos dos movimentos sistêmicos. 

Fui honrada também com o convite de minha colega de formação, amiga de tantas e tantas jornadas, Fabiane Bittencourt, para ministrar um módulo da formação que acontecerá em Porto Alegre, a partir do meio desse ano. Se tiver interesse, acesse o site http://constelacoesistemicas.com.br/formacao-constelacoes-familiares/

Seguimos...

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Encontros de fevereiro

Mudança na agenda do mês: por motivo de viagem, antecipamos para o dia 20 de fevereiro, terça feira, às 19h30, a vivência que aconteceria no dia 24. Gratos pela compreensão!

domingo, 28 de janeiro de 2018

Sobre as dimensões do tempo no trabalho das constelações familiares

Uma das perguntas recorrentes feitas nos grupos de constelação: 
Como é possível que situações que ocorreram em gerações anteriores (por vezes até desconhecidas da pessoa que constela) se mostrem presentes no campo da constelação manifestando nitidamente sua atuação e influência a vida atual do cliente? 
Sob a ótica científica, a epigenética traz explicações cada vez mais precisas a esse respeito. Por outro lado, tradições culturais ditas “primitivas”, lançam mão há séculos do recurso de atemporalidade na realização de seus trabalhos de cura.
Em que pese o fenômeno da atemporalidade se manifestar em diversas constelações e ser fascinante para quem assiste o trabalho, corre-se o risco de perdermos o sentido da constelação, ficando em um nível meramente especulativo e de curiosidade, se o fenômeno passar a ser considerado o próprio trabalho.  Ele não é. Consiste, sim, no meio através do qual chegamos a uma outra pergunta que nos conduz mais além: a serviço do quê ele existe? Por que ele se apresenta nos trabalhos de cura?
A seguir um trecho do livro de Daan van Kampenhout, La sanación viene desde afuera – Chamanismo y Constelaciones Familiares, onde o tema é tratado com maestria.  As observações entre parênteses são minhas.
[...]A experiência da atemporalidade é de suma importância na prática xamânica (e nas constelações). Quando a experiência do tempo linear é quebrada, o fluxo de histórias que normalmente contamos a nós mesmos é interrompido. Pensar em termos das histórias passadas, das que estão acontecendo agora ou que deveriam estar ocorrendo em seu lugar; ou ainda, acerca do que aconteceu ontem ou deveria acontecer no futuro, só é possível quando a consciência está firmemente ancorada no tempo linear. Na atemporalidade do ritual xamânico (e das constelações), essas histórias internas perdem sua sustentação imediatamente. Fragmentam-se e perdem sua coesão; podendo haver momentos nos quais ficam totalmente silenciadas. E quando o compulsivo monólogo interno se debilita, a consciência é liberada para uma nova experiência. Quando as histórias internas a respeito de nós mesmos e dos outros perdem o domínio sobre nossa atenção, o que sentimos é a experiência real de energia ligada a essas histórias, a energia que é a sua essência. Por exemplo, em vez de repetir a interminável queixa familiar de que nosso companheiro não fala que nos ama, de repente, podemos sentir outra verdade: o sofrimento silencioso que fechou seu coração há muito tempo atrás. Ou, em vez de dizermos repetitivamente que nossa mãe nunca nos olhou realmente e como isso nos mobiliza, agora sentimos o medo enorme de uma criaturinha que às vezes necessitava mais do que seus pais podiam lhe dar.  
Os padrões de pensamento habituais servem para manter a realidade fixa de uma forma que está a serviço das identificações da personalidade. Ancorada na atemporalidade, a consciência começa a ver outras camadas da verdade, a da verdadeira energia do corpo e as camadas mais profundas da psique. Experimentar a atemporalidade e, desse modo, abrir-nos para chegar a camadas mais essenciais de experiência, é um fator chave na cura, tanto para o xamã (constelador) quanto para seu cliente. [...]

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Palavras de um mestre

Os mestres: [...] Não canso de alertar meus alunos, tanto na Europa como nos Estados Unidos: "Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transformarem num alvo, mais vocês vão sofrer. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de um dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser. A felicidade deve acontecer naturalmente, e o mesmo ocorre com o sucesso; vocês precisam deixá-lo acontecer não se preocupando com ele. Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e coloquem-no em prática da melhor maneira possível. E então vocês verão que a longo prazo - estou dizendo: a longo prazo! - o sucesso vai persegui-los, precisamente porque vocês esqueceram de pensar nele."
Viktor Frankl - no prefácio da edição de 1984 do livro Em Busca de Sentido - Um Psicólogo no Campo de Concentração.