quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Unindo busca, conhecimento e cura na aplicação de temas ancestrais - Constelações e Experiência Somática

Foto: portão do cemitério judaico de Phillipson, Itaara - patrimônio tombado do RS,
monumento remanescente da primeira colônia de imigração judaica no Brasil.

Trecho do livro Encounters with Death (Encontros com a morte), de Ursula Franke em entrevista para Thomas Bryson, em livre tradução minha de 4 anos atrás, que reflete o título desse post.

“A morte é um tema essencial, no centro das constelações sistêmicas. Para cada um de nós, a realidade é que qualquer dia ou mesmo a qualquer momento, é sujeito a ser o nosso último nessa vida. Quando paramos para pensar, são os sintomas ou o sofrimento que nos levam a refletir sobre nós mesmos em um contexto mais amplo e, então, todas as questões importantes vêm à tona: “Como foi que cheguei nesse ponto onde estou agora?”, “Eu tive uma boa vida?”, “Cumpri minha missão?”, “O que eu ainda tenho que fazer antes de morrer para poder ir em paz e alegre?”.

Ao mesmo tempo, parece que vidas que não foram vividas satisfatoriamente e contextos onde ocorreram mortes traumáticas ou pouco pacíficas, deixam fortes impressões no corpo que passam através das gerações. É como se o organismo humano mantivesse a informação de perigo, luta e possibilidade de sobrevivência com uma memória biográfica e transgeracional importante, para acessar em situações similares no futuro, de forma que possa reagir imediatamente caso seja exposto a um evento semelhante novamente. [...]

[...] A melhor maneira de aprender é pesquisar em si mesmo, nas suas próprias questões, no seu jeito de ser e nos padrões de reação física, como eles se conectam com sua família e ancestralidade e em seus encontros com a morte. A história inteira da familia e do país está representada ali: as experiências de guerra do pai, a morte precoce de irmãos da mãe, ter testemunhado matanças de guerra em tempo de revolução e, ainda mais longe, as bruxas que formam queimadas no vilarejo vizinho, o medo da morte dos fazendeiros durante a Guerra dos 30 Anos, etc. Tudo isso ainda está representado em meu próprio corpo. E ter estado ali faz de mim alguém sem medo, mesmo diante dos desejos de morte de um cliente ou da sua ou minha própria possível morte por doença ou idade.[...]

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Ao Mestre, com carinho!

Se ainda estivesse nesse plano, dia 16 de dezembro, sábado passado, Bert Hellinger faria 98 anos.

Se você quer conhecer alguns fatos que marcam a história desse mestre, aí vão eles:

Nascido em 1925, no Sul da Alemanha, Hellinger estudou por seis anos em um seminário católico, até seu fechamento, durante o período nazista. Como retaliação a sua família, que não havia se filiado ao partido nacional-socialista, aos 17 anos Bert foi incorporado ao exército alemão e enviado para o front na Segunda Guerra Mundial. Prisioneiro por uma ano na Bélgica, conseguiu escapar e voltou à Alemanha, reingressando no seminário onde se formou sacerdote. Em seguida foi enviado como missionário para a África do Sul, convivendo por 16 anos com os Zulús.


Observando a profunda reverência daquele povo com seus antepassados, Hellinger despertou para a importância das relações humanas com a ancestralidade. Foi nesse período que conheceu as dinâmicas de grupo, aplicadas por missionários anglicanos. Quando retornou à Alemanha como diretor de um seminário, já estava profundamente interessado na psique humana e fez sua primeira formação terapêutica, em psicanálise. Mas, conforme contou no livro “Um lugar para os excluídos” (Ed. Atman), desde essa época, já sabia que não se enquadraria em uma linha terapêutica específica. Logo abandonou a vida sacerdotal, casou pela primeira vez e buscou outras formações. Entre elas: Terapia Primal, Análise Transacional, Gestalt, PNL, Terapia de Família.

As constelações, como as encontramos hoje, refletem o modelo aberto do trabalho de Hellinger: desde o estabelecimento dos princípios das “Ordens do Amor e da Ajuda”, no desdobramento nos “Movimentos da Alma” e, em seguida, nos “Movimentos do Espírito”.

Vale destacar que a abertura do trabalho não significa que as constelações sejam uma abordagem superficial ou uma pseudociência, como tantas vezes tem sido apregoado pela mídia. 

Os resultados dos trabalhos desenvolvidos por tantos profissionais com formações sólidas e eticamente responsáveis, deixa claro o fundamento de seu legado.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Em tempos desafiadores, o melhor caminho é o autoconhecimento.

Quando o contexto é de tal intensidade que os esforços individuais pouco ou nada o afetam, o que se pode ainda fazer é aprofundar o autoconhecimento. 

Através dele é possível realizar transformações que permitem viver com mais paz, mesmo que a situação exterior não convide a isso. 

Neste sentido, Viktor Frankl é um mestre. Sua vida é o testemunho de que, mesmo nas condições mais adversas, há possibilidade de vida, aprendizado e amor. 

Leitura recomendada: Em Busca De Sentido: Um psicólogo no campo de concentração - Frankl, Viktor, Ed. Vozes, 1991







terça-feira, 27 de outubro de 2020

Conheça o kintsugi, a filosofia japonesa do conserto

Os contextos mudam, mas a lição do kintsugi continua valendo!


Por Marina Gold

Pandemia, só dá ela. Pandemia! Pandemia! Pandemia! Não se fala em outra coisa, Não se pensa em outra coisa. Por isso mesmo, em meio à loucura, nossa obrigação, num mundo insano, é ser cada vez mais sensato.

Nesses muitos (e longos!) dias de despedaçamento – isolados, frágeis, angustiados, na solidão e no medo –, quando a sensação geral é que tudo estilhaçou, nossa tarefa é o conserto: recompor, recolocar, reordenar, reformar.

O conserto que almejo é o do kintsugi, a “emenda dourada” do zen. Trata-se da milenar arte oriental de reparar uma peça de cerâmica quebrada com o emprego de um tipo especial de laca (misturada com pó de ouro, daí o nome: liga ou correção de ouro).

O kintsugi, caminho de bom gosto aberto na simplicidade, sutil e elegante, está comprometido com a base do pensamento zen, a aceitação do defeituoso e do imperfeito, do que revela a efemeridade e a fugacidade de tudo. O kintsugi ensina o domínio do espírito sobre a matéria, o primeiro como morada do eterno, a última (refúgio provisório do nosso corpo), como temporária.

Curiosamente nas tradições orientais das cerimônias do chá, os apetrechos de cerâmica consertados pela “emenda dourada” ganham nova grandeza, são mais queridos e reverenciados. Eles se tornam a ilustração palpável da necessidade de aceitação do defeituoso, do imperfeito, das inevitáveis marcas de desgaste (alterações, modificações) vindas do uso das coisas materiais, das correções como simples eventos sempre presentes na vida.

A xícara partida em dezenas de cacos pode ser refeita. Sua recomposição surge como uma alternativa à realidade do seu despedaçamento. Após trabalho de extrema paciência (a resina demora semanas, ou até meses, para endurecer), ela pode novamente ser empregada, está consertada.

É a mesma? Não. O acidente, e posterior kintsugi, refizeram seu valor. Agora ela está no compartimento mais nobre do armário das louças. Evoca a “não importância”, o não-apego, a aceitação do destino e suas mudanças. Simboliza a fluidez de tudo e da própria vida humana. 

Assim, como uma xícara emendada à ouro, tenho minhas esperanças que consertaremos os cacos espalhados pela pandemia. As arestas indicarão o desgaste que o tempo provoca. As falhas (são muitas peças para colar!) vão transformar muitas coisas que eram comuns em coisas únicas, insubstituíveis. Curadas as feridas, teremos orgulho das cicatrizes: serão kintsugi.

Texto original publicado em:: 

https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/horoscopo/conheca-o-kintsugi-a-filosofia-japonesa-do-conserto,1082de55980123f546e1189526ded80btlt1h1cb.html