segunda-feira, 15 de junho de 2026

A paz - Fenômeno: futebol, de Hermann Furthmeier em Ayuda para la vida diaria, enero 2011 - tradução livre.


A Alemanha está jogando contra a Inglaterra nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2010.

Estou sentado em frente à TV, o placar está 2 a 1 a favor da “nossa” seleção.  A tensão está crescendo, as mãos suam, o batimento do coração é audível, o pulso se acelera e a respiração está contida.

É quando me chega o pensamento: o que está acontecendo aqui? O que está acontecendo comigo? Se estou sentando em frente a uma televisão e, na longínqua África do Sul, 22 homens correm atrás de uma boa e um juiz e dois bandeirinhas controlam o evento?

Trata-se de tudo o que tenho, minha estirpe, meu grupo, ao qual pertenço, meu país, Alemanha. Trata-se da sobrevivência do meu clã. As reações físicas indicam luta. O outro grupo, o outro país tem que ser combatido, tem que ser vencido. Só um “sobrevive”, só um pode seguir.

De onde vêm as reações corporais? Surge no corpo a memória das confrontações entre tribos de épocas remotas, onde logicamente, sempre se tratava de vida ou morte.

O enfoque de Bert Hellinger me ajuda. Ele descobriu que uma pessoa está ligada a seu grupo através da boa consciência e é assim que a defende. Assim se adquire o direito a pertencer ao grupo e, também, ganha-se mais honra.

Comigo, o corpo reage indubitavelmente pelo grupo da Alemanha e não sinto tristeza nem dor profunda se a Inglaterra é eliminada. Na esfera da boa consciência, encontro-me unido a meu clã, os outros, neste caso a Inglaterra, deve-se vencê-los “futebolisticamente” e aniquilá-los.

Em meu entender, muitos homens experimentam velhos padrões de luta aos quais estão profundamente arraigados. O corpo ainda os conhece, mesmo que o intelecto creia já haver-se despojado deles. Aquele que não sente este desejo de aniquilamento, sofre uma agressão oculta e não nota que seu estado pacífico é apenas superficial.

Como saio agora dessa tensão e ansiedade, a menos que queira manter-me a todo custo com essa sensação e lesionar meu coração? Somente com outra consciência, com a má consciência de ser infiel a todo esse processo e a meu país. Antigamente, isso estava ligado à exclusão do clã, à perda do pertencimento – que equivalia à pena de morte.

E logo chega uma compreensão: me imagino como um fanático torcedor inglês que se encontra em frente à televisão, cativo, apaixonado e com boa consciência por seu país. Como serão suas sensações e a de todos os outros fanáticos do mundo? Talvez com uma ou outra diferença de caráter, mas nenhum melhor ou pior na conexão com seu time em campo.

Agora começo a observar os homens dos dois times, como lutam, como se apaixonam, como entregam tudo, olho a todos da mesma maneira. O motivo os une.

Quem será o ganhador ou perdedor, já não tem tanta importância. Se estabelece uma distância. A mim não acontece mais nada diante da televisão porque, agora, estou indiferente. Estou superando minhas limitações prévias. As sensações físicas diminuem, as mãos estão secas, os batimentos cardíacos normalizados, chega o relaxamento. Não necessito lutar contra ninguém, nem aniquilá-lo, tampouco fugir.

Faz muito tempo que vale o antigo, repetido tantas vezes: as estirpes, clãs, povos, religiões, países que se enfrentam pelos motivos mais diversos. Foram especialmente os homens que, por todos os meios, procuraram a vitória de seu grupo para assegurar, assim, sua sobrevivência.  

É um velho jogo, no futebol se encontra mais refinado e civilizado, mas trata-se de ataque e defesa, velhos rituais de luta pela sobrevivência e do desejo de aniquilamento.

Muitos homens o amam e algumas mulheres também.

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